segunda-feira, 24 de junho de 2019

HECATOMBE


Coquetel molotov cruzando os céus da cidade
Alto-falantes e sirenes perturbando o sono alheio
(e descobrindo a nudez das insônias).
Mais coquetéis acesos ferindo a carne da noite,
E outros coquetéis que celebram a decomposição dos carácteres.
Meus olhos poéticos veem cometas, filhos de Haley!
E por falar nisso, Bill Haley, Alex Haley... Roots.
Corre-corre pelas ruas, pessoas que se atropelam,
Cavalos que seguem a tara de seus cavaleiros.
Caótico mundo em que a esperança tem o parto a fórceps.
Gazes, lágrimas e pimentas que não temperam nada.
Eu no meio de toda a confusão, porque não posso estar alheio.
Marcham eles, marchemos nós... conjugação verbal
Por que não preferimos a conjunção carnal?
Luzes e hélices que nos caçam como ratos fugitivos.
Eu no meio de tudo isso, apenas querendo dizer
Uma vez mais: Eu te amo!

24.06.2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

BLUES DO SER



                   Meu nome é Ser
                   Oh, muito prazer
                   O meu nome é Ser
                   E não tem nada a ver
                   Com esse belo dia
                    Que vai amanhã ser
                 
                    Meu nome é Ser
                    Muito mais que ter
                    O meu nome é Ser
                    Não vai esquecer
                    Meu coração de fogo
                    Quente há que ser
      
                    Meu nome é Ser
                    Você vai me ver
                    O meu nome é Ser
                    Ligue a sua tevê
                    A minha imagem
                    Virá em grande ser.

                                                   
                                                                24.03.1998

A NOITE


       
É noite
E ele caminha,
Luzes refletem
Em seu rosto,
Os carros passam
E ele caminha.
O feitiço foi lançado,
Ele resistiu,
Ele venceu.
O feitiço insistiu,
Ele venceu novamente
E ele caminha.
O céu escuro,
As estrelas,
A lua,
Gargalhadas,
Cheiro de álcool,
Perfumes e batom
E ele caminha.
Nem tudo é obsceno,
À noite os deuses
E os demônios confundem-se.
Mais carros
E o trem,
Café-expresso
Música,
E ele caminha,
Solitário,
Não tem prazer,
Não tem vontade,
Vampiros querem
O seu sangue
E ele caminha.


                      29. 11. 1994

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Brumadinho



Alma, lama, tudo junto, indistinto.
Lama, alma, vida e morte que se encontram.
É um corpo? É algo inerte que o barro esconde?
Triste regurgitar da natureza, indigestão antrópica!
Triste trópico tropicando no verbo lucrar.
Valeu a pena? Vale a pena? Vale apenas?
Rompimento de barragem...
Por que não rompemos a barragem que nos separa,
Distanciando-nos, homem a homem, por aparências?
Irônica metáfora de nossas corrupções:
Mar de lama!
Resto de Pompéia em antítese!
A Justiça não enxerga, a Vida se mudou,
A Fé está desacreditada, a Esperança chora!
Somente o Amor é renitente, e talvez baste
A sua existência para que o ânimo retorne
Fazendo renascer a Vida, a Esperança, a Fé e a Justiça!

28.01.2019
Carlos Carvalho Cavalheiro


sábado, 24 de novembro de 2018

Palavra



Se for para proferir uma palavra
Que ela não seja inconsequente
Como o olhar cobiçoso de um flerte.
Que seja mais do que um perfume
Que o tempo consumiu no papel de carta.
Almejo a perfeição da palavra construída,
Na arquitetura de meus sonhos juvenis,
Com a esperança em cores vivas.
Desejo a palavra que possa transmitir
O tanino das emoções que produzi no coração.
Enrubesço-me diante das palavras fúteis.
Ouço o apóstolo que exorta a desviar das conversas frívolas,
Como um capoeira que se esquiva com o gingar do corpo.
Não suporto a falsa palavra que escapa da boca
Com trajes e máscaras de promessas.
Não perdoo o vilipendio das palavras mal concebidas
Nas trevas das esquinas perdidas das metrópoles.
Gosto da palavra livre, mas responsável!
A palavra cigana que conhece muitos lugares,
Sem pertencer a nenhum deles.
A palavra que se derrama pelo papel
Dando-lhe vida como sopro divino.
A palavra que encontra sua morada
Na alma errante de cada poeta.


11.07.2018



Poesia classificada em 4º Lugar no XXVI Prêmio Moutonnée de Poesia - 2018 - Salto / SP

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Quando me encontrar com Cristo



Quando eu me encontrar com Cristo
Poderei olhar em seus olhos serenos
Porque jamais estive entre os torturadores.
Quando eu me encontrar com Cristo
Pedirei perdão pelas minhas fraquezas,
Por não ter tido coragem de visitá-lo na cadeia,
Como Ele me pediu em seu Evangelho.
Mas não terei a cabeça baixa porque nunca desejei
A morte de quem compartilhava com Ele o cárcere.
Quando eu me encontrar com Cristo
Exultarei por me lembrar das vezes em que afugentei
Para longe do meu espírito o discurso de ódio,
A vazão do desejo de usar da violência para tudo,
Porque eu ouvia constantemente a sua voz dizendo:
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus!”
Quando eu me encontrar com Cristo
Poderei dizer que não fui seduzido por falsos Messias,
Que guardei a divina palavra que me ensinou muitas coisas:
“O que oprime ao pobre insulta ao seu Criador;
mas honra-o aquele que se compadece do necessitado.”
Quando eu me encontrar com Cristo
Não terei vergonha de ter escolhido o caminho certo.

05.10.2018
Carlos Carvalho Cavalheiro

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Independência?



Não pude ouvir o brado retumbante
E nem enxergar o povo heroico em desfile
Pelo asfalto que cobria as águas plácidas do Ipiranga.
A poluição sonora me impediu, a poluição visual proibiu
A admiração da cena bucólica que serviu de berço à nossa independência!
A paisagem é outra, as circunstâncias são diferentes.
Estar ali, naquele palco, entretanto, me fez refletir.
O quanto a liberdade realmente canta em nosso peito
que diariamente desafia a morte nos becos e nas vielas,
nas comunidades em conflito?
E como podemos dizer que a independência nos abraça,
Quando o futuro já não mais espelha a grandeza de uma nação?
Oh, Brasil que o sonho intenso se converteu em pesadelo!
De filas imensas, de fados intensos e de parasitas comensais!

26.07.2018