quarta-feira, 4 de julho de 2018

“Quem acredita cresce”



A gota de água superou o medo
E intrépida, saltou da folha da árvore.
Logo a gota não era mais uma partícula,
Havia formado, com outras gotas, um regato
E esse regato correu mundo afora
Acreditando em sua potência subjetiva
E, encontrando outros regatos, converteu-se
Num curso d’água maior, num riacho.
E o riacho avançando sempre em frente
Acreditou no seu destino, na sua sina
E assim, transmutou-se em um rio
E o rio caminhou por planaltos e serras
Abriu vales e fez a sua fama, seu sucesso
Encontrou-se com o mar e cresceu,
Conheceu o mundo, abraçando o globo.
Um dia, o calor do sol arrebatou a gota
Suspendendo-a ao céu em forma de vapor.
Mas a gota não perdera a sua fé.
Logo se juntou a outras partículas,
Formou extraordinárias nuvens.
Até que decidiu que já estava pronta
Para refazer todo o caminho
Escrevendo sua história e acreditando
Na sua capacidade inata de ser mais!


05.02.2016


Carlos Carvalho Cavalheiro

Menção Honrosa no 5º Concurso Literário Pague Menos, tema: "Quem acredita, cresce", 2016.

Deuses



Marte entrou na festa
Odin já estava lá
Mas Ogum ficou de fora
Ao lado do amigo Oxalá.
Nyx estava deslumbrante
Com seu vestido de luto
Salpicado de pontos brilhantes
Acompanhada de Nuit, Nótt e outras,
Outras que não eram negras.
Exu quis adentrar ao baile,
Mas na porta foi barrado!
Espera! Hermes e Mercúrio,
E até Anjos judaicos lá estão...
Porém, você, Exu, carrega tridente!
Todavia, Shiva e Netuno também!
O seu argumento não é válido
Deixa em paz os outros deuses,
E conforme-se com isso:
“A festa não é para todos...
Alguns dançam a valsa,
Enquanto outros olham os carros”.

Carlos Carvalho Cavalheiro – 17.05.2018

Reminiscência



O cheiro de bolo de milho conquista o ambiente
Como uma horda impetuosa de bárbaros!
O café coado na hora complementa o quadro de odores.
Quanta lembrança despertada, quanta memória reativada.
Lembro-me de minha mãe fazendo o bolo...
Parece a descrição do Gênesis, quando Deus cria o homem
Daquilo que parecia ser apenas pó e mais nada.
Bolo de milho lembra também festa junina:
Recriação das antigas religiões da natureza.
Divindade, lembrança, mãe, bolo e natureza...
Tudo mesclado, amalgamado como a massa de farinha e ovo,
E milho, dourado como o precioso metal, metáfora do sol.
E da terra que brota o milho, milagre da fertilidade,
Mais uma vez o divino se manifesta na simplicidade,
Uma mesa de madeira, um bolo e um café!
Ao fundo, um acorde de viola caipira.


junho de 2018

Carlos Carvalho Cavalheiro

Poesia classificada em 1º Lugar no 1º Concurso de Poesia Junina, com o tema: "Bolo de Milho", coordenado por Eliseu Campos.

Alquimia garimpeira



Buscando a preciosidade
Entre as pedras tão comuns
Separando do cascalho
Aquilo que pode brilhar
Com a intensidade de uma estrela
Pés lavados pela água do riacho
Sonhos levados pela correnteza
Somos todos levados e lavados
Pelas correntezas da vida
Enquanto fazemos escolhas,
Do feijão, dos seixos e dos caminhos,
Buscamos a vida, a fortuna e o sentido.
Enquanto as mãos procuram pela riqueza,
Na escolha imprevidente e na contramão
De todas as possibilidades estatísticas,
O coração procura pelo sonho perdido
(Sonho e riqueza, uma mútua metáfora)
De todos os olhos comuns que me olham
Separei aqueles que provocam a alquimia
Fazendo arder em chamas o meu coração
Transmutando aquilo que é ignóbil
Em ouro dos mais recônditos desejos oníricos.


09/04/2017

Carlos Carvalho Cavalheiro



Menção Honrosa no 6º Concurso Literário Pague Menos, com tema "Onde está o seu sonho?", 2017.

Presença



A primeira vez que te vi foi num bailado.
Não sei ao certo se era um maracatu ou samba de roda,
Mas sei que tua presença trazia a reminiscência
Dos cantos que embalaram os nossos devaneios.
Perdi a conta de quantas vezes te vi pela rua
Saudando o que restava de massa asfáltica
Num sapateado incomum, sem precedentes.
E com alegria eu vi você sentada nos bancos escolares,
Aqueles mesmos que te negaram há alguns anos.
Encontrei a tua caligrafia em livros de sucesso,
Em todos os muros que registram a nossa passagem
Por este mundo que se movimenta pelos recados.
O teu rosto está na revista exposta nas bancas
E no próximo programa de televisão.
Ainda falta muito, ainda falta tudo, ainda falta...
Mas se a profecia de Simonal nos alerta de que o fim da luta
Está tão próximo... E quando vemos que Luther King não estava errado,
E que Mandela sobreviveu para nos ensinar como se constrói outro mundo...
Acreditando na inata vontade do ser humano em sobreviver,
Enfrentando os imensos desafios como o infinito mar,
Com a impavidez do almirante João Cândido (nem Ulisses ousaria tanto!),
E sendo a vitória de Menelik e Jesse Owens o enterro das teorias racistas,
É possível continuarmos a mesma tarefa incansável
De semearmos a fé e a esperança de que dias melhores virão.
Eu não sei o teu nome, só sei a tua cor: é negra!

05.02.2018

Poesia selecionada como finalista do 1º CONCURSO LUÍS GAMA, do INSTITUTO JOÃO CÂNDIDO - CCN - Centro Cultural do Negro - São Paulo (SP), 2018.

Cego, amor cego


MANCHETE



                      Sob o encanto da luz
                      De prata da lua
                      Um dervixe solitário
                      Dança em círculo
                      Na busca do êxtase
                      E cai, atordoado
                      No outro dia o jornal
                      Antipoéticamente anuncia
                      Em primeira página:
                      “Travesti esfaqueada
                       morre na sarjeta”.
                    
                                      25.11.2000

                            Carlos Carvalho Cavalheiro