domingo, 19 de janeiro de 2020

Fé do Semeador


Não há exemplo maior de fé do que a do semeador
Nem o peregrino que caminha descalço as distâncias incontáveis,
Ou o penitente que sobe de joelhos imensa escadaria,
Assim como o pregador que leva às lágrimas a multidão...
Nenhum desses demonstra mais fé do que o semeador.
Ele acorda todos os dias e sabe que a terra lhe será pródiga.
Ainda que os sinais do céu digam o contrário
Ainda que os sinais da terra desmintam a esperança
O semeador insiste em seu trabalho porque sabe
Que a qualquer momento a semente rebentará seu peito
Para deixar escapar de si o milagre da criação da vida.
O semeador não maldiz a natureza das coisas.
Antes, dialoga com elas com amizade e afeto.
O semeador planta porque sabe, em sua fé, que o sucesso virá.
A despeito da fome de hoje, a despeito do sol implacável, apesar de tudo...
Não há maior fé do que a do semeador.
Quiçá a das crianças que fogem pelos becos das balas perdidas,
Que correm da ferocidade das bestas soltas pelas ruas,
Que esperam por dias melhores quando todos já desistimos.

27.10.2019


Menção Honrosa no Concurso de Poemas "Gincana da Poesia", cujo resultado foi divulgado em 19 de janeiro de 2020.

MENÇÃO HONROSA
Os poemas que ganharam “Menção Honrosa” na Gincana da Poesia foram impressos e distribuídos como Poesias Doces (poesias impressas embalando balas doces) no Sarau e serão postados no Blog, Facebook e Instagram da Gincana da Poesia.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Hoje



Hoje o muro da vergonha desmoronou
Vento da liberdade foi mais forte
E seu hálito alimentou as asas do pássaro
Que fora da gaiola valorizou o sol que brilhava
Avermelhando o céu, limpo de nuvens.
O muro que separava as pessoas caiu
E seus destroços permitiram a vida da erva,
Que persistente aguardava o tempo certo.
O muro desmoronou...
E tanta coisa maravilhosa se pintou de esperança,
E tanta vida foi renovada... apenas porque o muro caiu!
E tudo isso aconteceu num só dia.
Quanta novidade coube neste dia, hoje!

08.11.2019


sábado, 12 de outubro de 2019

Marcas na pele


          Vidas dilaceradas
          Corrente de elos rompidos
          O lar que se torna apenas paredes
          Como são todas as prisões.
          A incompreensão e a violência,
          A intolerância e a brutalidade,
          Carimbando marcas na pele
          Como se fossem ferros em brasa
          Atestando a ausência de liberdade.
          Os gritos abafados, a vergonha contida
          O sonho que se converte em fel amargo.
          Quanto ainda resta de tempo?
          Quanto ainda resta de gente
          No corpo que carrega marcas
          Que o espelho bem conhece
          E a alma esconde nas profundezas?
              
25.05.2019

Hai-cai (2)


Torrencial chuva
Natureza faz o expurgo
Da podridão humana

25.05.2019

Hai-cai (1)


Lágrimas nos olhos
Carros confusos na rua
Ânsia para fuga

25.05.2019

sábado, 5 de outubro de 2019

Maturidade


            Há um instante em que o destino
            Cobra o tributo pelos anos vividos.
            O tempo, malfadado escultor e artífice,
            Entalha em nossa face linhas e marcas,
            Com precisão, mas sem escrúpulos.
            Algumas são profundas, outras rasas.
            Todas, porém, confidentes da alma.
            A consciência corrige os ponteiros
            E anuncia a hora exata da vida:
            É chegada a maturidade!
            O hálito de frescor da juventude
            Esvaiu-se como o grão de areia
            Que escapa pelo buraco da ampulheta.
            É hora de recolher os despojos,
            Organizar os troféus e louros,
            Expor o elogio da biografia concluída,
            Evidenciar o heroísmo de outrora.
            Não é o fim. Certamente há o que caminhar,
            Ainda resta um tanto de estrada.
            Mas, acostuma-te, mortal, com o verbo.
            Há de decliná-lo em demasia no tempo pretérito,
            Pouco no presente e quase nada no futuro.

20.07.2019

Carlos Carvalho Cavalheiro

Poesia classificada em 3º Lugar na 2ª edição do Prêmio Febacla de Criação em Verso e Prosa.

domingo, 28 de julho de 2019

Estrada de terra


                                                                          Foto: Carlos Carvalho Cavalheiro


                                              É uma estrada de terra,
                                              eu sou um peregrino,
                                              poeira nos meus olhos
                                              busco o meu destino
                                               O meu mundo num Blues          
                                              Seguindo por essa longa estrada de terra
                                             
                                              Procuro respostas
                                              encontrarei certamente
                                              nesta distante estrada
                                              de carona na sua mente
                                              em cima duma Harley Davidson
                                              Seguindo por essa longa estrada de terra
       
                                              É apenas um sonho
                                              uma estrada de terra
                                              até alma incandescente
                                              por aqui emperra
                                               mesmo no filme Easy Rider
                                              Seguindo por essa longa estrada de terra

                                                                    Carlos Carvalho Cavalheiro
                                                                                      21.04.1998.